quarta-feira, 30 de junho de 2010

AS T-SHIRTS para a galeria JOÃO PEDRO RODRIGUES




Poema do livro BONECAS TRAPOS SUSPENSOS.1983

A elegância da criança em seu gesto solitário.
O sono magoado de jovens escravos.
A hierarquia desfazendo-se em partículas de fogo.
A embriaguez de infantas sem infância, cabeças de safira.
A música fazendo bailar as flores mais débeis.

NO INFERNO DO AMOR poema do livro PALAVRAS AMANTES. 1993

A poeira luminosa dos teus olhos espalha sobre mim um prodígio de palavras. Somos tu e eu no inferno do amor. Na pele macia, nesse corpo onde o prazer aprende a ser crescente, o que me atrai é o desejo de o penetrar em toda a intimidade. Peço-te carícias, procuro a dissipação da dor ao tocar essa pétala de carne. Escrevo o livro onde sabemos existir uma espécie de morte.

ESPLANADA poema do livro EROSÃO DE SENTIMENTOS.1997

Na esplanada ninguém lê
um livro,sequer um jornal.
É a esplanada dos pobres vareiros.
O dono da tasca colocou mesas
e cadeiras de plástico no passeio
encardido,manchado de escarros,
beatas e outros detritos. Isto é
uma zona turística do meu país.
Vende-se bicha para os pescadores,
passa o eléctrico a horas mortas
com algum passageiro adormecido.
E já uma mulher de rosto fotogénico
e corpo franzino se mostra nas avenidas
onde moram os ricos. Acende o cigarro,
tenta convencer que tem classe. Sacode
os cabelos, imita alguma actriz
de telenovela.

Poema do livro ESQUIZO FRENIA. 1979

Do tronco de uma boneca nasceu uma boneca . O menino louco alegrou-se. À sua infância esquizóide foi dado mais um ser que amou inteiro.

O AMOR TAMBÉM É ASSIM - pintura e colagem s/ platex, s/ tela





CILADA poema do livro O AVESSO DO ROSTO.1991

A tentação de unidade não deixa de afirmar a sua presença. Isolar uma palavra, torná-la excepcional, não garante a glória ao poema. Cada instate é uma cilada, não há recursos e o passado nada prova. Desmedida, a paixão é também destruidora, provoca a cegueira, faz ver um acantecimento onde apenas existe o desastre ou o logro. Aceder à imperiosa vontade de escrever,ambicionar a plenitude, serve o presente. É necessário ser poderoso, atravessar a aridez e o enigma, ir até ao fim. A sedução, o engano empobrecem a minha época. Amar as palavras, a espessura do texto, coloca a dúvida onde muitos têm vindo a vacilar.

CENA LITERÁRIA do livro O DUPLO DIVIDIDO. 1993

O rastro da obra não é mais que uma presença discreta. Permaneço exterior ao mundo enquanto a palavra incide sobre a cena literária e provoca o desastre que muitos confundem com glória. Há uma falha permanente, o espelho. Há poemas que eternizam o livro, outros há que o tornam miserável.

Do Livro NERVURA.1984

Crianças sem memória desmaiavam olhando a luz. Seus dedos procuravam contacto. Não suportavam seiva de raízes, nem medo.Um lençol de terra sobre a face.
«É evidente que a poesia de Isabel de Sá fornece uma extensa matéria para pensar as questões da diferença de géneros e, neste sentido, faz apelo a um «feminist criticism» que quase não existe entre nós. Seria interessante analisá-la do ponto de vista das suas tensões internas, do impudor que revela face ao corpo ideal da mulher, silencioso, fechado, isolado dos outros, camuflado na amplitude de véus e de eufemismos. »
António Guerreiro. Expresso. 17 de Setembro de 2005

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Páginas do Livro de Artista 2009 - Página 21


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terça-feira, 1 de junho de 2010

IMAGENS

Imagens de seres humanos
bóiam nos rios como bonecos
de plástico. É A Vergonha
a toda a hora na televisão.
Os soldados abrem valas comuns,
as escavadoras levantam corpos
que se despedaçam. Não vão esquecer,
nunca mais dormirão como dantes.
O cheiro, os abutres
na berma da estrada a criança
só que ninguém vê. Deve ser
o fim do Mundo ou o princípio
de qualquer outra coisa.


Décimo Terceiro Livro, EROSÃO DE SENTIMENTOS, Editorial Caminho, 1997, Lisboa

POEMA DO LIVRO NERVURA - 1984

A flor ainda viva junto ao verde. Um homem idoso curvado sobre a terra trazia musgo nos dedos e um caracol novíssimo suportava a luz.